
O pastor e blogueiro Carlos Moreira
publicou artigo em análise às críticas feitas ao pastor Ricardo Gondim,
e afirmou que o pastor da Igreja Betesda “é parte da história recente
do cristianismo em nosso país”.
Moreira afirma que sua intenção não é defendê-lo, mas compreender
como Ricardo Gondim foi de “herói da fé a arqui-herege” na opinião das
pessoas.
O texto do pastor Moreira cita Caio Fábio e afirma que “a igreja é o
único exército que mata os seus feridos”, e crítica a igreja evangélica
como um todo: “Nós perdemos o respeito pelos nossos líderes, somos uma
geração sem referências, sem influências, sem heróis. Joga-se no lixo
tudo o que um homem fez em sua vida porque ele não está seguindo a
risca, para usar uma fala do próprio Gondim, o ‘evangelho’ segundo os
santos evangélicos!”.
A falta de incentivo ao pensamento por parte dos líderes evangélicos
gerou uma crise, segundo Moreira: “Crise de pensamento, é a substituição
da intuição pela dogmatização, do questionamento pelo fundamentalismo,
da liberdade de expressão pela tirania da letra. Onde os cristãos
imaginam que vão parar isolando-se cada vez mais do ‘mundo’? Como poderá
a teologia sobreviver nos dias atuais separada do resto do pensamento e
do conhecimento humano?”, questiona o pastor.
Carlos Moreira afirma estar preocupado com a origem das críticas ao
pastor Ricardo Gondim, pois segundo ele, seus críticos demonstram
parcialidade e incapacidade de debater ou analisar os assuntos e
propostas que o líder da Igreja Betesda discute e se arrisca a opinar.
-Muitos dos que fizeram análises e avaliações das falas e textos de
Gondim sequer têm preparo para sentar com ele numa mesa e conversar,
cinco minutos que seja, sobre os temas “malditos”. A grande maioria dos
líderes e pastores que o detratam são rasos, possuem um conhecimento de
“epiderme”, nunca investiram nem no estudo das Escrituras nem em estudos
de outros campos do saber. Estes, jamais topariam um debate com o
Gondim em rede nacional, pois, certamente, ficariam desconfortáveis e,
provavelmente, sem argumentos consistentes para refutar pensamos e
ideias. Boa parte dos textos “apologéticos” que li fazem “recortes
pinçados” daquilo que Gondim afirma, uma espécie de edição via fotoshop,
numa clara demonstração de que a análise é, no mínimo, tendenciosa. É a
velha práxis de “coar o mosquito” enquanto se engole o
“tiranossauro-nosso-de-cada-dia”.
Segundo o pastor Carlos Moreira, a maioria das igrejas evangélicas
“continuam dizendo que ‘Jesus é a solução’, mas não têm a mínima ideia
do que o mundo está hoje questionando”.
-Quando vejo alguns homens que jugo serem pessoas sérias, coerentes,
pensantes, representativas e, sobretudo, gente de Deus abandonando o que
aí está posto, quando ouço, por exemplo, um Leonardo Boff falar que o
cristianismo deveria se aproximar mais da existência, ou um Cáio Fábio
afirmar que hoje vivemos a perversão do Evangelho de Jesus, ou um Gondim
romper com o movimento evangélico, fico contando o que sobrou e,
sinceramente, assusta-me o que parece nos reservar o futuro! Acho que
Deus terá de levantar as “pedras” para pregar, pois faltarão pregadores.
Ou então vamos ficar com os estelionatários que aí estão, na TV, no
rádio, gente tão perversa que aqui não cabe nem nominar – pontua
Moreira.
O pastor e blogueiro Carlos Moreira afirma ainda que sua opinião em
relação às críticas feitas a Ricardo Gondim podem render críticas a ele
também: “Agora é só aguardar as pedradas”, e emenda dizendo que “é
privilégio sofrer pela causa do Evangelho e pelo nome de Jesus, ainda
que muitos não vejam que o que está acontecendo se encaixe neste
contexto”.
Confira abaixo a íntegra do artigo “Ricardo Gondim: de ‘Herói’ da fé a Arqui-herege”, do pastor Carlos Moreira, no Genizah:
Antes de escrever este artigo eu liguei para o Danilo,
editor chefe do Genizah. Falei do que gostaria de publicar e recebi sua
autorização. Assim, fico feliz em participar de um blog onde o
pensamento divergente se torna convergente com o fim último de suas
proposições: a verdade, a apologética, a democracia, o direito de livre
expressão, o respeito, o progresso do Reino de Deus!
Inicialmente, quero lhe dizer que Ricardo Gondim não me conhece; eu o
conheço. Sim, porque Gondim é parte da história recente do cristianismo
em nosso país e do movimento evangélico, com livros publicados,
participações em revistas aclamadas, congressos, simpósios, entrevistas
na TV, homem de notório saber, não só do ponto de vista da teologia, mas
de outras áreas do conhecimento, líder de uma denominação de expressão,
articulista, dentre outras muitas habilidades que o Senhor da Igreja
lhe concedeu.
Também não estou aqui para defender Gondim, até mesmo porque eu não
tenho nem categoria nem “pedigree” para isso. Aliás, ele sequer
precisaria de algo desta natureza: está lavado pelo Sangue do Cordeiro,
justificado de suas obras, crucificado com Cristo e com Ele
ressuscitado, já assentado nas regiões celestes e, com absoluta
convicção, aguarda o dia do juízo para ouvir de Jesus: “vinde, entrai no
Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo… Foste fiel no
pouco, sobre o muito te colocarei”.
Então, o que quero? Ora, eu busco entender os porquês de algumas
coisas. Eu tenciono levar você há pensar um pouco e a questionar as
razões de suas ações, como afirmava Nietzsch. Eu quero tentar sair desta
“cortina de fumaça” que se formou em torno de Ricardo Gondim, para
buscar enxergar práticas que estão em vigor hoje no mundo eclesiástico,
almejo, de alguma forma, discernir que “espírito” é este que surgiu
entre nós, que zeitgeist vem influenciando o “nosso ethos”, o que está
tornando-se “material” impregnado, tanto na mentalidade, quanto no
inconsciente coletivo dos evangélicos, se é que isto é possível.
Tenho acompanhado o “drama” do Gondim… Afirmo desta forma, pois, há
bem pouco tempo atrás, ele era um homem celebrado no meio evangélico, um
“herói” da fé. Seus escritos e mensagens abençoavam e alcançavam
milhões de pessoas dentro e fora do Brasil. Não tenho dúvidas das
centenas de milhares que foram levados a Cristo pela pregação do
Evangelho que foi posto em sua boca. Mas, de repente, em função de
algumas falas e escritos, a despeito de tudo, desgraçadamente, ele
transformou-se em arqui-herege da fé cristã. Interessante…
Eu li e assisti a todo o material que veio a baila nestes últimos
tempos. Não o fiz apenas nos blogs na internet, mas, sobretudo, entrei
no site de Gondim e desci as “profundezas” de seus pensamentos e
ensinamentos, de tal forma que evitasse texto sem contexto, exegese de
ocasião, sensacionalismo, e outros recursos mais que, penso, foram
usados neste e em outros casos.
Li também e, de forma cuidadosa, analisei, sem “sentimentos” ou
inclinações, as articulações dos apologetas sobre Gondim. Diante de todo
este cenário, valendo-me da posição que hoje me cabe, como editor
assistente do Genizah, com 30 anos de caminhada com Jesus, 10 dos quais
como pastor, com formação em teologia e filosofia, com centenas de
artigos e mensagens publicados em revistas e blogs, penso que, ao menos,
também ganhei o direito de ser ouvido por alguns instantes, ainda que
esteja “remando contra a maré”…
Minha fala carrega algumas preocupações…
Em primeiro lugar, preocupa-me como, tão repentinamente, um homem com
notórios “serviços” prestados ao Senhor da História, da Vida e da
Igreja, tenha se transformado em alguém tão execrado. Como bem afirmou
Cáio Fábio – outro que já viveu algo de natureza semelhante, ainda que
por questões totalmente diferentes – “a igreja é o único exército que
mata os seus feridos”. O homem vem pregando e falando a mesma coisa há
décadas e, de repente, por começar a pensar em outras possibilidades e
analisar outras “rotas”, tudo o que fez, toda sua história, sua
reputação, construída com lágrimas e muito trabalho, foi para o
“beleléu”, pois, agora, sentenciado pela multidão que grita
“crucifica-o”, ele se “converteu” em inimigo da fé.
Parece-me, grosso modo, que o que se quer é ver o “circo pegar fogo”!
Nós perdemos o respeito pelos nossos líderes, somos uma geração sem
referências, sem influências, sem heróis. Joga-se no lixo tudo o que um
homem fez em sua vida porque ele não está seguindo a risca, para usar
uma fala do próprio Gondim, o “evangelho” segundo os santos evangélicos!
Pouquíssimos tem, ao menos uma ideia, do “preço” que um homem deste
paga para chegar onde chegou. É um custo de vida, aliás, é quase não ter
vida, mas vamos “jogar pedra na Geni!”, e de forma, não raro,
irresponsável. Gondim caiu em desgraça porque ousou pensar diferente,
mas cometeu o pior de todos os pecados: tornou isso público!
Em segundo lugar, preocupa-me a grave crise que vivemos, pois ela é
crise de pensamento, é a substituição da intuição pela dogmatização, do
questionamento pelo fundamentalismo, da liberdade de expressão pela
tirania da letra. Onde os cristãos imaginam que vão parar isolando-se
cada vez mais do “mundo”? Como poderá a teologia sobreviver nos dias
atuais separada do resto do pensamento e do conhecimento humano? Será
que ninguém vê que o mundo mudou? Quem tem coragem e ousadia de
articular a ponte que leve a fé ao diálogo com os outros saberes, que a
liberte da prisão a qual a “instituição” a remeteu? Gondim vem tentando
fazer isso e olha no que deu!? Como bem citou João Alexandre, em uma de
suas maravilhosas canções: “é proibido pensar!”. Estou certo: é mesmo…
Estamos vivendo em meio a uma geração movida à repetição, que “segue
mapas”. Ainda nos encontramos presos ao século XIX, não ousamos, não
avançamos, não dialogamos com os outros, não nos abrimos à reflexão, a
auto-análise, não ouvimos críticas, achamos que a teologia é algo que
está acima do bem e do mal, somos tão ufanistas que sequer cogitamos que
podemos estar equivocados. Estamos debaixo da tirania de Procusto,
normatizados pela instituição perversa, nossas consciências se
cauterizaram pela pregação de uma mensagem que nada mais tem de
Evangelho. Tristemente tornamo-nos a “igreja playmobil”: somos todos
iguais, falamos todos iguais, pensamos todos iguais, vestimos todos
iguais, cremos todos iguais!
Em terceiro lugar, preocupa-me o fato de que muitos dos que fizeram
análises e avaliações das falas e textos de Gondim sequer têm preparo
para sentar com ele numa mesa e conversar, cinco minutos que seja, sobre
os temas “malditos”. A grande maioria dos líderes e pastores que o
detratam são rasos, possuem um conhecimento de “epiderme”, nunca
investiram nem no estudo das Escrituras nem em estudos de outros campos
do saber. Estes, jamais topariam um debate com o Gondim em rede
nacional, pois, certamente, ficariam desconfortáveis e, provavelmente,
sem argumentos consistentes para refutar pensamos e ideias. Boa parte
dos textos “apologéticos” que li fazem “recortes pinçados” daquilo que
Gondim afirma, uma espécie de edição via fotoshop, numa clara
demonstração de que a análise é, no mínimo, tendenciosa. É a
velha práxis de “coar o mosquito” enquanto se engole o
“tiranossauro-nosso-de-cada-dia”.
Apesar de não concordar com alguns pensamentos de Gondim, em nada ele
me escandalizou. Pensar diferente não ofende, abre “sendas” para um
olhar novo sobre questões antigas. Isso não desconstrói minhas
convicções, pelo contrário, por vezes ajuda a sedimentá-las! Sei que
este homem agiu com retidão, abriu o coração, sei de sua seriedade e
serenidade ao tratar dos assuntos do Reino, pois, mesmo sem o conhecer,
conheço o seu legado e tenho convicção que ele próprio não poderia negar
aquilo que passou toda a vida crendo. Seu pensamento avança ainda que,
talvez, por terrenos eventualmente “pantanosos”, mas certamente rumo a
um platô que lhe ponha firme sobre a Eterna Rocha que, uma vez posta,
sendo a Pedra Angular, jamais poderá ser removida: Cristo, Jesus.
Em quarto lugar, preocupa-me a igreja evangélica não está aberta a
nenhum tipo de conversação que vá para além da ortodoxia e, em alguns
casos, para além do fundamentalismo já posto. Aqui vão me dizer que as
“Escrituras são nossa única regra de prática e fé”, e eu assim também
creio, mas não me sinto “amarrado” ao ponto de não usar da liberdade que
disponho em Cristo para pensar, para fazer conjecturas, para
teologizar, como tantos outros fizeram antes de mim, pois nossas crenças
estão, usando um conceito de Foucault, sobre “camadas de saber” que
foram construídas por outros, desde os Pais da Igreja até os pensadores –
teólogos e filósofos – dos nossos dias.
Ora, nós somos o “produto” do pensamento de muitas gerações, de
homens e mulheres que, ao seu tempo, ousaram, com aqueles que com eles
estavam, refletir, pensar, questionar. Ninguém irá ao “inferno” de fogo
por assim agir, isso eu lhes garanto… Toda teologia é temporal e
antropológica, produto do tempo, da cultura, da sociedade e do homem em
um determinado momento histórico. Mas as igrejas hoje querem apenas
seguir a cartilha de sua denominação, pois nelas é pecado mortal pensar
de forma diferente ou se abrir a novos saberes. Continuam dizendo que
“Jesus é a solução”, mas não têm a mínima idéia do que o mundo está hoje
questionando…
Em quinto e último lugar preocupa-me o destino do cristianismo como
religião institucionalizada. Quando vejo alguns homens que jugo serem
pessoas sérias, coerentes, pensantes, representativas e, sobretudo,
gente de Deus abandonando o que aí está posto, quando ouço, por exemplo,
um Leonardo Boff falar que o cristianismo deveria se aproximar mais da
existência, ou um Cáio Fábio afirmar que hoje vivemos a perversão do
Evangelho de Jesus, ou um Gondim romper com o movimento evangélico, fico
contando o que sobrou e, sinceramente, assusta-me o que parece nos
reservar o futuro! Acho que Deus terá de levantar as “pedras” para
pregar, pois faltarão pregadores. Ou então vamos ficar com os
estelionatários que aí estão, na TV, no rádio, gente tão perversa que
aqui não cabe nem nominar.
Não estou preocupado com a Igreja de Jesus, pois esta sempre estará
lutando contra as hostes do mal, defendendo “a fé que foi entregue uma
vez por todas aos santos”, pregando a sã doutrina, amparando os caídos
da existência, servindo a Deus com coração pacificado, adorando-o com
todo ardor e amor, aguardando com ansiedade a volta de Jesus! Todavia,
esta igreja invisível e católica – Universal – de Cristo, está inserida
dentro das milhares de ramificações do cristianismo, pois é fato que
existe uma igreja dentro da “igreja” e só o “Cabeça do Corpo”, que a
tudo vê, pode discernir quem é “joio” e quem é “trigo”. E assim, como
partícipe da religião institucionalizada, angustio-me com seus rumos,
temo pelos dias vindouros, desencanto-me com suas posturas, percebo sua
grave crise, sua “septicemia intelectual”, sua falência múltipla em
termos de prática e fé.
Bem, tudo dito, agora é só aguardar as PEDRADAS… (risos). Mas quem
escreve aqui deve estar sempre preparado. Como de costume, não
responderei as críticas, não é falta de respeito, mas de
disponibilidade. Isso toma o pequeno espaço de tempo de postar novo
artigo para abençoar meia dúzia dos que precisam. Ao Gondim, meu mano
querido na fé em Jesus, desejo que seu coração seja inundado de paz e
misericórdia, que ele fuja de toda raiz de amargura que esta “saraivada
de golpes” pode vir a provocar, que se entregue ao Justo Juiz e sinta-se
consolado por seus antecessores, uma grande “nuvem de testemunhas”, os
quais foram perseguidos, mortos, torturados, serrados ao meio,
caluniados, destratados, injuriados, “homens dos quais o mundo não era
digno”, conforme Hebreus, capítulo 11.
Termino este texto desejando encontrar corações quebrantados e
espíritos humildes para entender o que está exposto, que não distorçam
as afirmações aqui feitas, pois sou responsável pelo que escrevo, mas
não pelo que entendem… Contudo, depois de ler o artigo da Bráulia e ver
os comentários tenho poucas esperanças… (risos). Que Deus nos guie a Sua
vontade e ao temor do Seu nome. Quanto a você, Gondim, caso leia estas
linhas, sei que sabe que é privilégio sofrer pela causa do Evangelho e
pelo nome de Jesus, ainda que muitos não vejam que o que está
acontecendo se encaixe neste contexto… Parafraseando-o, então, concluso
dizendo: Soli Deo Gloria!
Carlos Moreira é editor assistente do Genizah e escreve também para a Nova Cristandade.